"PODE CONTER LEITE/OVOS" DEIXA DE SER VEGANO?

A leitura de rótulos já pode ser complicadinha pelos diferentes e desconhecidos nomes que um produto pode ter na sua composição, mas essa leitura fica ainda mais confusa quando se depara com um item totalmente vegano - e inclusive com selo/certificação - com os avisos “pode conter leite/ovos” ou até “contém lactose”. Isso gera um estranhamento logo de cara, afinal, um produto vegano é naturalmente livre de qualquer item de origem animal. Pra esclarecer isso, reunimos aqui a explicação sobre esses avisos.

A rotulagem de que “pode conter leite/ovos” presente em diversos produtos não denota que ele tenha esses ingredientes em sua composição, como muitos podem pensar. Ele é utilizado na indústria porque se uma marca não é exclusivamente vegana ou adquire matérias primas de outra que não seja estritamente vegana, é muito provável que compartilhe maquinários e equipamentos com os demais produtos onde insumos de origem animal são manipulados. Nesses casos, o que pode ocorrer é uma contaminação cruzada (transferência de substâncias de um alimento para o outro), que acontece de modo indireto através de utensílios/superfície - mas isso não significa que o maquinário é compartilhado ao mesmo tempo.

Assim, um alimento vegano produzido na mesma fábrica de um não vegano pode ser contaminado, e isso é comprovado efetivamente na leitura dos ingredientes do produto. O aviso de que “pode conter” existe principalmente para alertar pessoas com grau elevado de intolerância ou alergia de que aquele produto corre o risco de ter sido contaminado de alguma forma.

 

Imagem: Simabesp

 

Segundo documento elaborado pela ANVISA, “a contaminação cruzada com determinado alimento alergênico deve ser declarada quando o produto não se enquadrar nas situações que exigem a declaração da presença intencional desse alimento alergênico ou seu derivado. Por exemplo, um produto com adição de derivados de leite (ex. caseína) não pode trazer a advertência de contaminação cruzada com leite (ALÉRGICOS: PODE CONTER LEITE). Neste caso, deve ser utilizada apenas a advertência de presença intencional (ALÉRGICOS: CONTÉM DERIVADOS DE LEITE”, ou seja, um produto que necessariamente contém o derivado em sua composição, não pode utilizar a informação como se fosse uma “possibilidade”. Para saber mais sobre rotulagem de alergênicos, pela ANVISA, veja aqui.

Em 2017 se instituiu também a rotulagem referente ao grau presente de lactose nos produtos. A lactose é o açúcar presente no leite, e por grande parte da população possuir algum grau de intolerância a ela, a adaptação foi realizada e teve até o ano de 2019 para ser instituída aos rótulos. 

 

Imagem: Genuine

 

Se uma empresa não apresenta derivados nos seus ingredientes mas informa conter lactose (derivada de contaminação cruzada), há duas formas de descobrir se o produto é de fato vegano: conferindo se o mesmo é certificado com selo vegano da Sociedade Vegetariana Brasileira, ou entrando em contato diretamente com a empresa e solicitando pela informação.

É importante se atentar ao fato de que esses avisos são obrigatórios e regulados pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) uma vez que tais alimentos são classificados como alergênicos. Essa informação, somada ao dado de que a intolerância a lactose é uma questão que atinge até 75% da população conforme estimativa, serve como mais uma reflexão sobre o que escolhemos consumir. As pautas de empatia e sustentabilidade são pilares fundamentais do veganismo, mas a saúde também está diretamente relacionada ao movimento e as intolerâncias e alergias à derivados refletem isso.

 

Texto escrito por Vegalizai