L-CARNITINA: UM SUPLEMENTO IMPORTANTE PARA VEGETARIANOS?

A L-carnitina é um aminoácido presente nas carnes e laticínios e que pode ser sintetizado pelo organismo a partir da lisina e metionina, outros dois aminoácidos. Este nutriente possui um papel importante no metabolismo energético, sobretudo pela sua participação no transporte de ácidos graxos para a matriz mitocondrial, para que sofram beta-oxidação. Traduzindo: a carnitina atua no transporte da gordura para que ela seja utilizada para produzir energia pelas nossas células.

Em virtude da baixa ingestão por vegetarianos, especialmente os estritos, os níveis de carnitina no sangue desta população são reduzidos, conforme confirmado por uma série de estudos, enquanto seus níveis nos músculos, onde mais 95% da carnitina fica estocada, demonstraram valores variados até então. Estes dados levantaram a hipótese de que este suplemento poderia ser de especial interesse para esta população.

Um grupo de pesquisadores alemães resolveu testar exatamente isso, reunindo 24 homens jovens (entre 28 e 40 anos), sendo 8 deles onívoros e 16 deles vegetarianos (dentre os quais 2 eram veganos), para que testassem a eficácia da suplementação de 2g de L-carnitina por dia durante 12 semanas, com o objetivo de avaliar o aumento da concentração plasmática e muscular de carnitina, bem como marcadores do metabolismo energético, como a fosfocreatina, o lactato e o glicogênio muscular.

O desenrolar do estudo completo se deu ao longo do período de 16 semanas, durante o qual nas 4 primeiras semanas foram realizados testes preliminares para verificar a capacidade aeróbia e de excreção de creatinina dos participantes, a fim de planejar os protocolos de treinamento e obter dados para a comparação futura, bem como amostras de sangue foram coletadas e uma biópsia muscular foi realizada (para verificar os níveis de carnitina intramusculares). Durante este período nenhuma suplementação foi oferecida.

Na sequência, foi iniciada a suplementação com 4 cápsulas de 500mg de L-carnitina diariamente, duas delas tomadas após o café da manhã e outras duas após a refeição do final da tarde. Os participantes foram orientados a seguir sua rotina de exercícios e dietas normais, que foram recordadas para análise futura. Ao longo dos estudo os pesquisadores monitoravam a adesão por telefone e através da contagem de cápsulas consumidas.

Ao fim do período de 11 semanas de suplementação os participantes realizaram novos testes de capacidade aeróbia a fim de regular os testes que seriam realizados na semana seguinte, ao final do experimento. Respeitados os protocolos previstos, todos os participantes realizaram um último teste na bicicleta ergométrica, com duração de 60 minutos à 75% de seu VO2max, e tiveram suas amostras de sangue e biópsias musculares coletadas.

Resultados

Inicialmente, os níveis plasmáticos de carnitina dos vegetarianos eram significativamente mais baixos do que o dos onívoros e a suplementação com L-carnitina foi capaz de aumentar os níveis de ambos os grupos e eliminar a diferença entre eles. Já os estoques de carnitina intramuscular, que inicialmente eram muito semelhantes entre os grupos (algo que não é unânime na literatura), sofreram um aumento de 13% no grupo dos vegetarianos e não foram alterados no grupo dos onívoros. Estas informações poderiam nos levar a imaginar que a performance dos vegetarianos pudesse ter sido beneficiada, entretanto o metabolismo energético e o desempenho de ambos os grupos não sofreram alterações, corroborando com os achados de diversos estudos anteriores que já haviam demonstrada que este suplemento é incapaz de melhorar a performance.

Conclusão

De um ponto de vista mecanicista, ou seja, baseado apenas no mecanismo de ação da substância, a L-carnitina é um suplemento com interessante potencial sobre a melhora da performance e até da queima de gordura – sobretudo em vegetarianos, que não obtém esta substância através da alimentação –, porém os estudos que temos até agora não comprovam isto. Os pareceres das principais entidades de Nutrição Esportiva do mundo classificam a suplementação com L-carnitina de baixa comprovação de eficácia e este estudo demonstra que o mesmo permanece verdadeiro para vegetarianos.

É importante ter em mente que apenas um estudo não é capaz de validar ou não a utilização de nenhum suplemento, mas sim o corpo de evidências que é construído ao longo dos anos. Existem estudos que demonstram resultados positivos do uso de carnitina para outras finalidades ou em outras circunstâncias, como utilizando 2g de citrulina juntamente de 80g de carboidratos, durante 24 semanas. A questão é: qual a aplicabilidade disto? Talvez para um atleta treinando para o Ironman seja interessante, mas e para uma pessoa que só deseja melhorar seu desempenho na corrida ou perder aqueles quilinhos extras? O objetivo destes posts é muito mais estimular uma reflexão do que taxar uma substância como útil ou não.

É tentador obter uma resposta definitiva sobre a eficácia ou não de uma substância, mas não é tão simples assim – por isso é interessante poder ter um bom profissional em quem confiar, que possa analisar este contexto não somente para, mas COM você.

Um abraço e bons treinos!

FILIPE TESTONI é nutricionista, especialista em Nutrição Vegetariana.

Referências:

NOVAKOVA, Katerina; KUMMER, Oliver; BOUITBIR, Jamal; STOFFEL, Sonja D.; HOERLER-KOERNER, Ulrike; BODMER, Michael; ROBERTS, Paul; URWYLER, Albert; EHRSAM, Rolf; KRÄHENBÜHL, Stephan. Effect of l-carnitine supplementation on the body carnitine pool, skeletal muscle energy metabolism and physical performance in male vegetarians. European Journal Of Nutrition, [S.L.], v. 55, n. 1, p. 207-217, 23 jan. 2015. Springer Science and Business Media LLC.