VOCÊ É O QUE VOCÊ COME? RELAÇÃO OVO-CÂNCER

O corpo humano é composto por trilhões de microorganismos comensais simbióticos em todas as suas superfícies e dentro do intestino. Existem mais células bacterianas no intestino do que células humanas em todo o corpo. Na verdade, apenas 10% do DNA do corpo humano é “humano”. O restante está no microbioma, que são os micro-organismos com os quais compartilhamos o que é chamado de “nosso corpo”.

 

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A microbiota intestinal funciona como um filtro para a maior exposição ambiental: “o que comemos”. É possível, de forma lúdica, dizer que a comida é um “objeto estranho” e é colocado diariamente, aos quilos, nos corpos. Assim, a “comunidade microbiana” influencia significativamente a forma como a refeição impacta no organismo. Consequentemente, o metabolismo e absorção dos alimentos e seus nutrientes ocorrem através do filtro feito pelas bactérias.

No entanto, ocorre que em dietas com o consumo frequente de ovos, carnes vermelhas, aves, peixes, leite e seus derivados, as bactérias intestinais podem transformar esses alimentos em um grande fator responsável pelo o aumento de doenças crônicas como as cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Pois, o consumo excessivo deles pode gerar um desequilíbrio interno, promovendo o crescimento de bactérias que convertem a colina e a carnitina, presentes nesses alimentos, em trimetilamina (TMA), que pode ser oxidada em TMAO e provocar lesões nas artérias, aumentando o risco de doenças cardiovasculares (incluindo ataques cardíacos), acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade.

O TMAO (trimetilamina N-óxido), um subproduto de bactérias intestinais formado durante a digestão e que tem forte interação na relação microbioma-doença, pode ser o motivo pelo qual o consumo de ovos tem sido associado a um elevado risco para o desenvolvimento de câncer. A colina está presente, principalmente, em carnes, ovos, laticínios e grãos refinados. A ligação entre carne e câncer está sendo muito discutida e, talvez, não surpreenda ninguém. Mas, qual seria a ligação entre ovos e o câncer?

Estudos atuais publicados vêm apontando que os ovos podem ter relação com o desenvolvimento de câncer de cólon. Embora nenhuma relação tenha sido descoberta entre o consumo de ovos e o desenvolvimento de pólipos pré cancerosos, o que foi sugerido é que “o consumo de ovos pode estar envolvido no estágio promocional” do crescimento do câncer, ou seja, acelerando o seu crescimento em vez de iniciar o câncer em primeiro lugar. Talvez seja o TMAO, subproduto da colina presente na carne e nos ovos, que esteja promovendo tal crescimento. Embora possa haver mais evidências de risco elevado de câncer de mama com consumo de ovo do que risco de câncer de próstata, um estudo publicado no British Journal of Nutrition, em 2015, sobre TMAO e câncer analisou o câncer de próstata e realmente encontrou um maior risco.

Já é de conhecimento de todos que a dieta é considerada um fator primordial para a saúde. Porém, com o aumento do interesse e o avanço dos estudos relacionados ao microbioma humano na última década, começou o entendimento sobre como a dieta pode interferir na microbiota intestinal, e o TMAO pode ser o gatilho para promover e agravar algumas doenças.

Uma vez que a colina e a carnitina são as fontes primárias de produção de TMAO, uma estratégia de intervenção pode ser a redução do consumo de carnes, ovos e laticínios. E se, por um longo tempo, a alimentação for à base de plantas é possível modificar as comunidades microbianas intestinais de modo que o organismo não seja capaz de produzir TMAO.

 

Texto baseado no artigo What Explains the Egg-Cancer Connection escrito por Michael Greger M.D. FACLM e publicado no site NutritionFacts.org

 

Referências:

1. Falony, G. Vieira, S.  Raes, J. Microbiology Meets Big Data: The Case of Gut Microbiota-Derived Trimethylamine. Annu Rev Microbiol. 2015; 69:305-21.

2. Genevieve Tse; Guy D Eslick. Egg consumption and risk of GI neoplasms: dose-response meta-analysis and systematic review. Eur J Nutr. 2014 Oct;53(7):1581-90.

3. Keum, N et al. Egg intake and cancers of the breast, ovary, and prostate: a dose-response meta-analysis of prospective observational studies. Br J Nutr. 2015 Oct 14;114(7):1099-107

4. Yonemori et al. Dietary Choline and Betaine Intakes Vary in an Adult Multiethnic Population. J Nutr. 2013 Jun; 143(6): 894–899.

5. Xu et al. A genome-wide systems analysis reveals a strong link between colorectal cancer and trimethylamine N-oxide (TMAO), a gut microbial metabolite of dietary meat and fat. BMC Genomics 2015, 16(Suppl 7):S4

6. W.H. Wilson Tang; Stanley L. Hazen. The contributory role of gut microbiota in cardiovascular disease. J Clin Invest. 2014 Oct 1; 124(10): 4204–4211.

 

Texto escrito por Ale Luglio, nutricionista especializada em nutrição vegetariana.

 

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