NUVEM DE GAFANHOTOS, AGROTÓXICOS E AQUECIMENTO GLOBAL

Imagem: BBC/CRA

 

NUVEM DE GAFANHOTOS, AGROTÓXICOS E AQUECIMENTO GLOBAL

Há cerca de dois meses, mais uma notícia vem apavorando os brasileiros: a possível chegada de uma nuvem de gafanhotos. E não é pequena: a estimativa do Senasa é de que havia em torno de 40 milhões desses insetos inicialmente. Desde lá, a rota mudou muitas vezes e ainda não sabemos ao certo o que pode acontecer nos próximos dias. 

 

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O que acontece é que, na verdade, são três nuvens localizadas na América do Sul. Sim, isso mesmo. A primeira foi localizada em maio, vinda do Paraguai para a Argentina. No dia 16 de julho, uma nova onda de insetos foi localizada no Paraguai. Então a terceira nuvem foi localizada pelo governo da Argentina no dia 21 de julho. Com todas essas nuvens, o governo argentino decidiu tomar atitudes pulverizando agrotóxicos, o que matou cerca de 80% dos insetos. Apesar de mais espalhados e com sua grande maioria do enxame dizimado, os insetos permanecem na mesma localidade, ou seja, a aproximadamente 98 quilômetros da Barra do Quaraí, na Fronteira Oeste do RS. 

Dá uma olhada na rota que a nuvem fez:

Imagem: G1

 

A gente sabe, a quilometragem parece grande, mas não é: os gafanhotos são capazes de percorrer até 100 quilômetros por dia. No domingo (2), em função do calor, os gafanhotos devem passar a se movimentar no sentido sul, mas são apenas previsões. Mesmo ainda sendo só uma possibilidade, o governo já está preparado para isso. 

 

POSSÍVEIS IMPACTOS AMBIENTAIS 

No fim do mês passado, o Ministério da Agricultura declarou estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Essa medida permite a contratação de pessoal por tempo determinado e autoriza a importação temporariamente de defensivos agrícolas (leia-se agrotóxicos ou venenos, como preferir) que nunca foram usados no Brasil e que agora serão permitidos. Ainda, o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) disponibilizou 70 aviões para aplicar o inseticida contra a nuvem. O governo do estado ainda conta com uma frota de cerca de 400 aeronaves para apoiar o combate. 

 

NÃO É A PRIMEIRA VEZ QUE ISSO ACONTECE

Há 73 anos, uma nuvem de gafanhotos em Pelotas-RS deu início à aviação agrícola no país. E mais uma vez lidaremos com agrotóxicos em grande escala. Parece o certo a se fazer? Bom, especialistas alertam que o uso de agrotóxicos é inadequado para enfrentar os gafanhotos e que pode causar sérios danos às pessoas e ao meio ambiente. Acontece que o manejo incorreto de inseticidas destrói agentes que são controladores naturais do crescimento de insetos e da proliferação de pragas. Esses agentes naturais são, por exemplo, os sapos, pássaros, bactérias e fungos. Há fungos, por exemplo, que são responsáveis por causarem doenças que matam os percevejos e gafanhotos. E, quando você usa incorretamente os agrotóxicos, você destrói todos esses microrganismos que seriam importantes para controlar, naturalmente, o crescimento da população de insetos. Acaba sendo um círculo vicioso.

 

Imagem: Anderson Machado/Divulgação/Sindag

 

Entendemos toda questão econômica que envolve, ainda mais com a cidade de Barra do Quaraí, para onde a nuvem se encaminha, ter grande parte da população sobrevivendo com a renda do cultivo de arroz e da criação de gado - sabemos que os insetos têm grande poder em acabar com as plantações, deixando o gado sem comida. Mas aqui voltamos para mais um círculo onde tudo está conectado. Não entendeu? Te explicamos do início. 

 

COMO FORMAM AS NUVENS DE GAFANHOTOS

Eles vivem normalmente em bando e acabam formando essas nuvens para ir atrás de alimento e facilitar a reprodução. Acontece que agora está mais favorável do que nunca para a proliferação destas nuvens. Por exemplo, atualmente deveria estar muito frio na região sul, mas está quente. Então, o clima está favorável para os insetos, porque está quente e seco. O professor de entomologia da Universidade de Cruz Alta, Maurício Pazzini, afirma que se o Rio Grande do Sul estivesse com a condição ideal de inverno, temperaturas frias, consequentemente não teria essas populações porque o frio iria impedir. Acontece que, em pleno julho, as temperaturas chegaram na casa dos 30 graus. 

Esses eventos de insetos podem se tornar uma ocorrência mais frequente com o aquecimento global - os especialistas temem que a mudança climática faça os insetos agirem de maneira mais destrutiva e imprevisível. Já existem evidências de que o aumento da temperatura tem um efeito direto sobre o metabolismo dos insetos: um estudo de 2018, publicado por cientistas americanos na revista Science, mostrou que o clima mais quente os torna mais ativos e mais propensos a se reproduzir.

O outro motivo é, como falamos antes, a eliminação dos inimigos naturais do gafanhoto (pássaros, sapos, fungos e bactérias) - em parte pelo uso incorreto e abusivo de inseticidas e agrotóxicos. Ou seja, a formação da nuvem de gafanhotos tem total conexão com o aquecimento global, o qual tem total relação com a criação de gado (com o aumento do CO2 e tudo o que já sabemos bem). A nuvem tem também ligação direta com o uso abusivo de agrotóxicos, quais estão sendo utilizados para matar os insetos - mas em vez de ser apenas controle, são a causa também. Complexo, né?

 

É muito difícil dizer o que é o certo a se fazer agora, mas uma certeza temos: a forma que viemos lidando com a natureza é insustentável. A natureza tem seu ciclo e seu funcionamento. Cada atitude que tomamos que impacta ela, afeta seu ciclo e traz consequências - e vemos isso, inclusive, na pandemia que estamos vivendo. Precisamos ser mais conscientes e lidar de forma mais coerente com esse planeta que é a nossa única casa.

 

Texto escrito por: Vegalizai

 

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