ACS ORIENTA O MAIOR CONSUMO DE PLANTAS, MENOR CONSUMO DE CARNE

Foi publicado, no primeiro semestre de 2020, nos Estados Unidos, pela American Cancer Society (ACS) a nova diretriz de dieta e atividade física na prevenção do câncer, que recomenda padrões alimentares em um contexto comunitário. Tais diretrizes foram desenvolvidas por um painel nacional de especialistas em pesquisa, prevenção, epidemiologia, saúde pública e políticas de câncer e reflete as evidências científicas mais atuais relacionadas aos padrões alimentares e de atividade física e risco de câncer. Comparada à última publicação e devido ao aumento de evidências, essa diretriz atual traz várias recomendações que diferem da anterior: maior ênfase na redução do consumo de carne processada e vermelha, em alinhamento com a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) que classificou em 2015 as carnes processadas como cancerígenas e carne vermelha como provável cancerígeno; maior ênfase na redução do consumo de álcool; e a adição de possíveis estratégias baseadas em evidências para reduzir as barreiras à alimentação saudável e à vida ativa e para reduzir o consumo de álcool.

 

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O câncer é uma doença crônica e a segunda principal causa de morte nos Estados Unidos, superada apenas pelas doenças cardiovasculares. Uma alimentação pouco saudável, excesso de peso corporal, falta de atividade física e consumo excessivo de bebidas alcoólicas são considerados fatores de risco para o câncer, e a combinação deles representou 18,2% dos casos de câncer e 15,8% das mortes por câncer nos Estados Unidos em 2014. Quando falamos em prevenção dessa doença, a nutrição e a dieta saudável são importantes determinantes, tanto por suas contribuições ao balanço energético quanto por meio de mecanismos biológicos que podem alterar os biomarcadores metabólicos. Estimativas recentes atribuem diretamente à má alimentação cerca de 4,2% a 5,2% dos casos de câncer.

Esse guia recomenda o aumento no consumo de alimentos à base de plantas e a exclusão ou redução do consumo de carne vermelha e processada como meio para a diminuição do risco de câncer. A orientação é seguir uma padrão alimentar saudável em todas as etapas da vida, da gestação à senilidade, onde devem estar presentes em alta quantidade alimentos densamente nutritivos, como uma grande variedade de vegetais, principalmente os verde escuro, vermelho e laranja; leguminosas como feijões, ervilha, lentilha; frutas preferencialmente inteiras e de diversas cores; e grãos integrais. Destaca, ainda, que por serem ricos em fitoquímicos e fibras alimentares, os grãos integrais podem reduzir o risco de câncer colorretal, através da modificação da produção de ácidos graxos, níveis reduzidos de espécies bacterianas pró-inflamatórias, e acelera o tempo do trânsito intestinal, reduzindo assim a duração da exposição do intestino a agentes cancerígenos. Os alimentos de origem vegetal devem estar presentes na dieta de forma variada e em quantidades adequadas para que auxiliem a manter um peso corporal saudável.

Houve destaque na abordagem da exclusão ou redução do consumo de carnes vermelhas e processadas, pois as melhores evidências disponíveis continuam apoiando as recomendações para limitar a ingestão como umas das formas de prevenção do câncer. Em 2015, o painel de especialistas da IARC concluiu que a carne processada é um carcinógeno do grupo I e a carne vermelha é um carcinógeno humano “provável” (grupo 2A) com base em evidências de aumento de riscos do câncer colorretal, além de evidências de biomarcadores. O relatório mais recente, de 2019, da World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research concluiu que a carne processada está “convincentemente” relacionada ao câncer colorretal e que a carne vermelha “provavelmente” aumenta o risco de desse tipo de câncer. Potenciais mecanismos biológicos subjacentes a essas associações incluem o consumo de nitratos e nitritos em carnes processadas, com danos oxidativos ao DNA resultantes da formação de nitrosaminas no intestino catalisadas pelo ferro-heme e a formação de aminas aromáticas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos durante o cozimento de carne em alto calor como cocção em grelhas ou churrasqueiras. Ainda não há evidências se existe uma quantidade segura para o consumo de carnes processadas. E, na ausência de tais conhecimentos, o ACS recomenda optar por alimentos proteicos de origem vegetal como feijões, lentilhas, grão de bico, e/ou peixes e aves, ao invés de carne vermelha (não processada) e, consumir com muita moderação produtos à base de carne processada.

O guia enfatiza em diversos momentos a importância dos padrões alimentares saudáveis na redução do risco de câncer, da mortalidade e de outras doenças crônicas, e cita como exemplo a Plant-Based Diet que é associada a níveis mais baixos de inflamação, melhor resposta à insulina e menos danos oxidativos ao DNA. Essa dieta também está associada a concentrações mais altas de bactérias intestinais benéficas, quando comparadas com dietas com alimentos de origem animal como carne (todos os tipos) e leite e seus derivados que tendem a ter alto teor de gordura saturada, gordura total e açúcar.

Esses padrões alimentares saudáveis recomendados pelo guia, ​não contribuem apenas para a melhoria da saúde, mas também para a redução do impacto ambiental, como diminuição das emissões de gases de efeito estufa e uso de energia, terra e água em comparação com a dieta média dos EUA.

 

FONTE: Rock, C.L.; Thomson, C.; Gansler T. et al. American Cancer Society Guideline for Diet and Physical Activity for Cancer Prevention. CA CANCER J CLIN 2020;0:1–27. Published online June 9, 2020

 

Texto escrito por: Ale Luglio, nutricionista especializada em nutrição vegetariana.

 

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