VEGETARIANISMO: DE HOMEM PARA HOMEM

Na minha carta de apresentação aqui na MOTHER eu comento brevemente sobre esse tema (se você não leu clique aqui) e penso que o momento em que vivemos seja adequado para explorar mais sobre o assunto. Se você é homem, vegetariano ou não, te convido à leitura deste texto e a uma reflexão. Se for mulher, poderá ler e encaminhar para alguém que possa se interessar ou beneficiar com ele.

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Qualquer homem que não come carne certamente já foi alvo de piadinhas que colocam sua masculinidade à prova. Fomos educados em uma cultura machista e de exaltação da violência, que começa com as brincadeiras na primeira escola, é reforçada na adolescência durante um período em que a todo o tempo os garotos parecem precisar demonstrar que possuem um cromossomo Y no seu DNA e testosterona nas suas veias. Esse comportamento, para alguns, parece se estender pelo resto da vida, tendo sido muitas vezes estimulado dentro do próprio lar, tornando os homens, de alguma forma, vítimas da maneira como foram educados.

Pros machões lendo esse texto, que já devem ter torcido o nariz pro que um vegano “frutinha” possa estar dizendo sobre masculinidade, antes de desistirem de ir até o final, saibam que eu certamente já atendi a todos os critérios de admissão no clubinho dos mais “alfas” e posso falar sobre isso com muita propriedade.

Entrei no exército aos 19 anos de idade e no primeiro ano me destaquei como melhor aluno da turma, venci a prova de combatente de melhor aptidão física contra meus companheiros e recebi os prêmios de melhor desempenho intelectual e de comportamento,  o que, acredite, não teria acontecido se eu tivesse me recusado a matar e comer animais na instrução de sobrevivência. Aliás, eu sequer estaria aqui contando essa história se não me enquadrasse nos padrões então exigidos.

Nos anos seguintes fui atleta das modalidades mais extenuantes, que envolviam corrida, natação, lançamento de granadas e tiro, todas completamente fardado e equipado. Comandei meu pelotão durante um bom tempo e fui o “instrutor maldito” dos cursos de formação de soldados, sargentos e oficias, antes de comandar uma Companhia de Fuzileiros. Se além de ser forte operacional, emocional e psicologicamente a sua lista incluir ostentar músculos, coloque dois troféus de fisiculturismo em algum lugar dessa história também. Então, por favor, não me venha com esse papo de carnívoro machão que jamais comeria um animal se tivesse que matá-lo ao invés de comprá-lo em uma bandeja no supermercado.

Com essa descrição já dá pra imaginar o Sylvester Stallone incorporando o Rambo em algum dos seus filmes que inspiraram a minha e outras gerações a serem tão “machos”. Ocorre que os atributos que mereciam enaltecimento nestes filmes eram outros, sobretudo a coragem, no meu ponto de vista.

É curioso que a maioria dos homens que se referem aos veganos de forma pejorativa nunca sequer passaram por qualquer tipo de provação que os incluísse dentro dos padrões que eles mesmos adotaram como tipicamente masculinos. Eis que, está aí uma ótima maneira de se afirmar “homem” que não exige sacrifício algum: comer carne e acreditar que, por algum tipo de associação (bem tosca) com nossos ancestrais ou com predadores selvagens, o são também. 

Estou certo de que existem inúmeras teses para explicar estes fenômenos e reconheço minha ignorância quanto a elas. Peço desculpas, inclusive, se falei alguma bobagem neste sentido, mas meu lugar de fala não é o de um especialista comportamental, e sim de um homem que precisou se desprender daquilo que lhe foi enfiado goela abaixo como essencial para provar o seu valor e sua importância numa sociedade de valores questionáveis.

A tal da coragem que deveria ter sido exaltada nos filmes de ação hollywoodianos é atributo fundamental para que se quebre os paradigmas daquilo que nos foi transmitido como normal. Não há nada de normal em continuar tratando os animais como seres inferiores destinados a nos servir. Se isso foi necessário algum dia, que possa ser deixado no passado como as cavernas, as espadas e a escravidão foram.

É preciso dar um novo significado a suposta evolução e superioridade da raça humana, que se lança no espaço enquanto promove a destruição da própria casa e fornece ambiente perfeito para novas mutações de vírus capazes de colocar a todos nós de joelhos, como acabamos de testemunhar, nas aglomerações cruéis de animais que serão assassinados para nos alimentar.

Vamos nos livrar de toda essa tralha cultural relacionada ao que significa ser homem de verdade. Não há nada para ser provado, não existe “homem de verdade”. O que precisa existir são “humanos de verdade”, independente do sexo que nasceram ou com o qual desejam se relacionar. Humanos de verdade reconhecem seu papel como parte de um conjunto de seres simbióticos intimamente conectados, que juntos formam apenas um grande organismo vivo. Não pode haver saúde plena em um planeta doente, assim como não pode haver felicidade às custas do sofrimento de outras espécies.

Se você ainda está apegado a estes conceitos inúteis sobre masculinidade, encoraje-se a mudar. Se se sente intimidado ou incomodado com os comentários daqueles que pregam esta mentalidade, encoraje-se a se posicionar. É só através da coragem de lutar contra o status quo que seremos capazes de promover as mudanças necessárias para melhorar o nosso convívio com outros seres, humanos e não humanos.

Por fim, se perceber o afastamento de amigos que você considera queridos por não entenderem sua atual forma de enxergar o mundo, não se preocupe: está aí uma excelente forma de seleção natural - a mesma que um dia extinguirá o que se entende atualmente como prova de masculinidade. Seja homem, desperte!

FILIPE TESTONI é nutricionista, especialista em Nutrição Vegetariana.

 

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