DISTANCIAMENTO SOCIAL: COMO PERMANECER UM OUVINTE EMPÁTICO

O COVID-19 revelou muitas coisas sobre o nosso mundo, incluindo as vulnerabilidades inerentes às nossas instituições econômicas, de saúde e educacionais. A pandemia e as ordens de distanciamento social também revelaram vulnerabilidades em nossos relacionamentos com os outros.

Muitos de nós não estamos apenas lidando com os nossos próprios sentimentos de ansiedade, raiva e tristeza; estamos lidando com a ansiedade, raiva e tristeza demonstradas pelas pessoas com quem vivemos e com quem mantemos conexões virtuais. Como reagimos com empatia quando nós mesmos estamos sentindo uma série de emoções? Isso é possível?

Pesquisas demonstraram que é possível, e até mesmo benéfico para nós mesmos e para nossos relacionamentos, aprendermos a praticar a empatia e outras habilidades, mesmo quando não estivermos em paz com o mundo. Considerando que não seremos obrigados a vivermos em quarentena para sempre, faz sentido se esforçar para preservar e promover relacionamentos saudáveis que durarão muito além do tempo do COVID-19.

 

Compartilhar emoções é bom, mas ouvir também é necessário

Expressar nossas emoções a entes queridos é uma resposta natural ao stress. Na verdade, compartilhamos nossos sentimentos com os outros por vários motivos: para nos relacionarmos, para sermos consolados ou para sermos aconselhados. Compartilhar nossos sentimentos com os outros pode nos ajudar a lidar com as nossas próprias emoções.

Mas não é apenas o ato de dividir emoções que nos ajuda a nos sentir melhor. Ter um parceiro que ouve, que responde emocionalmente e "entenda" é fundamental.

É difícil estar realmente presente para alguém quando nós próprios nos sentimos estressados. Na verdade, ouvir o sofrimento do outro pode afetar negativamente o nosso bem-estar. 

 

Praticando um novo conjunto de habilidades

A habilidade de compartilhar sentimentos com alguém e ouvir os sentimentos do outro de uma forma não crítica, que respeite os valores de ambos, é algo que psicólogos chamam de flexibilidade relacional. Pesquisas demonstram que existem várias formas de cultivar a flexibilidade relacional.

 

  1. Reconecte-se aos seus valores: Podemos ser pegos no momento e esquecer o que realmente importa. Terapias como a de aceitação e comprometimento, e até mesmo práticas espirituais, podem auxiliar o realinhamento de nossas ações com nossos valores pessoais para que preocupações externas, pressão do tempo ou outros fatores não afetem o nosso comportamento. Imaginar o que gostaríamos que pessoas dissessem em nossa festa de aposentadoria, aniversário ou até mesmo no nosso funeral pode trazer os nossos valores para o centro das nossas atenções.
  2. Seja curioso: Pare e pense como gostaríamos que o nosso parceiro reagisse se dividissemos esses mesmos sentimentos. E considere o motivo pelo qual eles podem estar se sentindo assim. Do que eles precisam agora? Você pode se surpreender ao descobrir que nem sempre o seu parceiro faz questão de que você resolva seus problemas quando estão chateados. Muitas vezes eles já sabem o que fazer, mas, em vez disso, procuram apoio emocional. Alinhe sua resposta com o que eles querem. Em caso de dúvida, pergunte.
  3. Valide: A validação emocional é um sinal poderoso de que se aceita alguém pelo que ele é. Podemos expressar a validação emocional prestando atenção, reconhecendo que o que eles sentem é real, refletindo o que os ouvimos dizer, expressando nossa tristeza ou indignação pelo que eles vivenciaram, e fazendo perguntas sobre o que você pode fazer para apoiá-los.
  4. Preste atenção ao momento presente: Pode ser difícil ouvir sobre o sofrimento do outro. Às vezes, nos desligamos, nos distraímos, entramos no modo de solucionar problemas ou mudamos de assunto justamente por ser desconfortável ouvir a angústia alheia. Com a prática, você pode observar, tomar consciência e aceitar seus próprios sentimentos, mesmo quando ouve calmamente o outro. 
  5. Dedique tempo ao outro: Esta é uma das principais dicas em terapias de casal e pode parecer uma solução óbvia, mas passar tempo com o outro fica mais complicado quando a sua atenção está dividida entre trabalhar em casa, estudar em casa, gerenciar uma variedade de estressores relacionados à pandemia e as atividades de lazer. Lembre-se de seus valores e marque compromissos nos seus calendários para atividades em conjunto. Os sentimentos positivos que derivam dessas atividades sustentarão uns aos outros.

 

Limites da escuta

Certamente, temos os nossos limites ao ouvir a dor de outra pessoa. Mesmo os parceiros mais tolerantes e amorosos podem não ser capazes de responder da forma que esperamos. Isso pode ser porque eles precisam se distrair. Nesse caso, pode ser sensato procurar outros que compartilhem da sua situação ou das suas circunstâncias. E se você é o ouvinte e se sente sobrecarregado pela dor do outro, é importante cuidar de si mesmo e deixá-lo saber que você não é capaz de dar o que ele precisa. E se você ou um conhecido revelar que se sente tão pra baixo que pensa em se machucar, é hora de procurar ajuda profissional.

Para aqueles que compartilham o bom, o mal e o feio com seus parceiros, familiares e amigos durante esta pandemia, reconheça que tem muito a agradecer, por mais socialmente distantes que tenhamos de estar nesse momento. Este momento, como todos os outros, passará e voltaremos a nos abraçar.

 

Por Annmarie Caño para The Conversation

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