LEITE E SAÚDE

O consumo de leite de vaca é cultural e, ainda, recomendado por diversas diretrizes alimentares no mundo, por ter uma combinação complexa de macronutrientes, micronutrientes e fatores promotores de crescimento que podem contribuir para a nutrição humana. No entanto, todos esses nutrientes podem ser obtidos de outras fontes, inclusive através de alimentos de origem vegetal, como acontece em muitas sociedades tradicionais com consumos historicamente baixos de leite e seus derivados. Baseado nisso, nos últimos anos, novos estudos têm surgido e questionado se esses alimentos oferecem todos os benefícios que são alegados.

 

Leia também: DIETAS VEGANAS MELHORAM A RESISTÊNCIA E A FORÇA MUSCULAR


O The New England Journal of Medicine publicou, recentemente, um artigo de revisão avaliando o consumo do leite e seu impacto na saúde. Uma justificativa central para o alto consumo de leite, que persiste até hoje, tem sido atender às necessidades diárias de cálcio para benefício da saúde óssea e redução do risco de fraturas. Mas, paradoxalmente, os países com o maior consumo de leite e cálcio tendem a ter as maiores taxas de fraturas de quadril, sendo assim, tal evidência geral não suporta o alto consumo de laticínios para redução de fraturas. De fato, alguns estudos mostraram que o leite pode promover velocidade de crescimento e maior altura alcançada, devido a maior quantidade de aminoácidos de cadeia ramificada como a leucina, isoleucina e valina presente no leite de vaca, porém isso confere riscos e benefícios. Pois, os dados encontrados nos estudos analisados não suportam a alta ingestão de leite durante a adolescência para prevenção de fraturas na vida adulta e sugerem que essas ingestões podem contribuir para a alta incidência de fraturas em populações de países com maior consumo de leite. No entanto, o crescimento e desenvolvimento normais podem ser obtidos durante toda a infância e adolescência sem leites e derivados, se for dada devida atenção à qualidade da dieta
ofertada.

O consumo de laticínios também não está claramente relacionado ao controle do peso ou aos riscos de diabetes e doenças cardiovasculares. Algumas recomendações avaliadas no estudo defendem o consumo de leite e derivados com baixo teor de gordura, pois a gordura saturada eleva os níveis da lipoproteína de baixa densidade (LDL) e é um fator de risco estabelecido para doenças cardiovasculares. Já a substituição da gordura saturada por carboidratos, incentivado por muitos anos pelas diretrizes alimentares dos Estados Unidos, reduz o colesterol LDL. Entretanto, o tamanho das partículas de lipoproteína de alta densidade (HDL) e colesterol LDL também diminui, e os níveis de triglicerídeos e fatores inflamatórios aumentam. Uma alternativa mais adequada, seria a substituição de gordura saturada por gorduras insaturadas, presentes em alimentos vegetais, que têm benefícios semelhantes na atuação no colesterol LDL, mas sem os efeitos adversos e está associada a um menor risco de doença cardiovascular.

Um ponto de preocupação é que o consumo elevado de leite e derivados provavelmente aumentará os riscos de câncer de próstata e câncer de endométrio, especialmente entre mulheres na pós-menopausa que não estão recebendo terapia hormonal, mas, poderá reduzir o risco de câncer colorretal. Em estudos de coorte prospectivos, o consumo de leite está continuamente associado a um maior risco de câncer de próstata, especialmente nas formas agressivas ou fatais, porém não a um maior risco de câncer de mama.

Em relação às alergias e intolerância ao leite, o estudo cita que a alergia às proteínas do leite de vaca pode afetar até 4% dos bebês e causar problemas nutricionais significativos. Alguns estudos sugerem que o consumo de leite pode exacerbar respostas alérgicas, atribuindo uma predisposição para asma, eczema e alergias alimentares. Um estudo publicado no Journal of Allergy and Clinical Immunology avaliou durante um período de 10 anos lactentes, com histórico familiar de predisposição às respostas alérgicas. Os que foram aleatoriamente designados para receber fórmula proteica hidrolisada apresentaram menor risco de doença alérgica e eczema do que os lactentes designados aleatoriamente para receber leite de vaca.

É importante observar que os efeitos relatados à saúde dependem fortemente dos alimentos ou bebidas específicos com os quais são comparados. Para muitos resultados, eles se comparam favoravelmente com carne vermelha processada ou bebidas adoçadas com açúcar, mas menos favoravelmente com fontes de proteínas vegetais, como as oleaginosas.

O estudo destaca que o papel do consumo de leites e derivados na nutrição humana e na prevenção de doenças merece uma avaliação criteriosa, e que a recomendação atual de aumentar o consumo para 3 ou mais porções por dia não parece justificada. Pois, se a qualidade da dieta for baixa, especialmente para crianças em situações de baixa renda, o leite e seus derivados podem contribuir para uma melhor nutrição, enquanto, se a qualidade da dieta for alta e adequada, é improvável que o aumento da ingestão forneça benefícios essenciais e possíveis danos à saúde podem ser causados.

FONTE: Willett, W. C.; Ludwig, D. S. Milk and Health. The New England Journal of Medicine. Fevereiro, 2020, 382:7

Texto escrito por: Ale Luglio, nutricionista especializada em nutrição vegetariana.

Voltar para o blog