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VOLTA NA ILHA GRANDE

julho 07, 2021

Esse guia é dedicado a falar um pouco mais da jornada cruzando toda a circunferência trilhada da Ilha Grande. Foram quase 90km correndo pelas trilhas, e um trecho não marcado logo no começo do dia 1. No time, somaram os fiéis Adolpho, Bernardo, David, Duda, Fábio, Guto e eu. Melhor nem buscar o currículo de cada um porque é muito pesado. Contamos com o apoio do Ulisses da Brigada Mirim caso tivesse algo inesperado. Estávamos equipados com um rádio de longo alcance e headlamps — que, pra infelicidade de alguns, não foram utilizadas. Deixamos uma uma muda de roupa na brigada Mirim para o final do dia 2, e a ideia era fazer a volta na ilha o mais leve possível. Depois de sair do RJ de carro, e atravessar para Ilha de barco (óbvio), enfim amarramos os sapatos às 9h, bem mais tarde que o ideal.

Créditos sejam dados: a ideia da missão foi do Duda. O responsável por juntar a galera, no início tinha outra ideia. Queríamos fazer um esquema que permitisse um barco pequeno nos acompanhasse e levasse mantimentos pro local que passaríamos a noite ao relento, AKA bivac. Essa logística se tornou complicada e cara, e pra não perder o timing, reservamos uma pousada pra cair duro e jantar sem grandes complicações. Para cada escolha, uma renúncia: o custo do plano com a pousada era a distância a percorrer, 40 kms no primeiro dia, ou pelo menos assim achávamos. Ledo engano.


Em uma pesquisa de trilha e percurso, você se informa sobre altimetria acumulada, sobre o tipo de terreno, eventuais bifurcações, usa todos os apps e pega informações de relatos de quem já fez. Mas é até meio óbvio dizer que tem que vivenciar as coisas na hora pra saber do que se trata.
Então com 10km no bolso, chegamos na parte “de fora” da ilha, pelo canto leste de Lopes Mendes e ficamos maravilhados. A junção de floresta tropical fechada e mar aberto é indescritível na Ilha Grande. Quinta-feira, praia só nossa. Foto pra lá e pra cá, Drone voando, piadinha e apelidos pra todo mundo, maior astral carioca. Queria ficar perdido no tempo naquele momento pra sempre. Refresco gelado comprado no isopor do local e vamos em direção a Dois Rios. Aparentemente um trecho tranquilo, nos pegou desprevenidos. Em certo momento, a trilha simplesmente desapareceu com muitos deslizamentos e árvores caídas. Conseguíamos ver um resquício de trilha, mas uma hora não tinha mais nada, estávamos só varando o mato (pausa pra admirar essa expressão “varar o mato” linda que só). Sabendo que o mar estava à esquerda, indo à frente estaríamos certos, mas sete pessoas para tomar decisões importantes, é muita gente. A dúvida era se seguíamos varando o mato por onde estávamos e a trilha talvez aparecesse como mágica. Podíamos ver o mar, se continuássemos descendo a encosta chegaríamos em algumas rochas, e seguiríamos dali — ou se subíamos a encosta pois supostamente a trilha estava acima de nós. Estava tudo certo sempre, mas perder tempo é o mais preocupante. Não sei se é habilidade de qualquer Escalador, mas mérito pro Fabinho, que conseguiu ler o terreno da montanha e fez a busca da trilha, que mais parecia uma rodovia quando voltamos, comparado a uma hora só vendo mato denso. A chegada no presídio de Dois Rios foi regada a empadão caiçara pros que gostam, e paçoquinha pro menino jowzis-in-vacation-far-away. Mais de quatro horas de tempo corrido, e só 21km percorridos. Dia longo no escritório.

De Dois Rios até Parnaioca foi um daqueles momentos que entramos no automático, e apagamos algumas memórias por motivos de sobrevivência, mas lapsos de memória me remetem à arrastar a carcaça, amigos reclamando de bolhas nos pés, racionamento de comida, e um trecho de trilha relativamente rápido. Enfim chegamos em um trecho que conhecia de novo. Em provas e trajetos desafiadores muito longos ou com navegação, coloco na minha cabeça para amenizar o sofrimento “quando conheço bem um lugar, estou em casa”, mas a chegada na Praia do Leste foi com as pernas muito moídas e o humor já não era dos melhores. Pés encharcados de cruzar vários rios e comida nas últimas. Um retão de areia com o sol castigador deu baixa em um corredor. O jeito de ajudar foi puxá-lo, suas pernas navegando no piloto automático. Cruel, mas mais cruel ainda seria caminhar sol a pino se arrastando sozinho. Na verdade, vi essa cena só de relance, pois estava focado na busca do Pai BFO, que ligou a locomotiva e acelerou nessa hora. O resto do time focou em ajudar o amigo a cruzar as duas praias correndo. A chegada em aventureiro foi um alívio por um lado, e tenso por outro. Se agora estávamos em “civilização” comendo pastel e repondo os estoques, por outro lado já batiam 42km no relógio e não estávamos nem perto de Araçatiba, local de descanso — e o céu já escuro às 17h30.

O cenário:

— Erramos o caminho/ a conta da distância. Faltavam mais duas subidas duríssimas (800m total) até a parada do pernoite, e a distância/escalada às cegas;

— Número inferior de headlamps ao de pessoas para usá-las;

— Um com pé parcialmente torcido, outro abatido do estômago e energias, todos cansados em níveis diferentes;

— Sem comida extra e incerteza sobre uma nuvem carregada sobre nossas cabeças;

— Grupo dividido entre animação para entrar no mato à noite, versus pausar onde estávamos e seguir do mesmo lugar no dia seguinte.

Ninguém quer ser feio, mas depois de uma discussão calorosa, no dia seguinte estimamos que se tivéssemos adentrado na noite, seriam no mínimo mais três horas somadas às oito já percorridas.

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40 kms acumulado nas pernas do dia anterior.
despertador às 5h30

— Bom dia, meu povo.
— Bom dia pra quem? Pra chuva que não para? Pronto pros pés encharcados o dia inteiro?

Dramas à parte, a chuva foi constante o dia inteiro, porém mesmo com o terreno completamente molhado e escorregadio em alguns trechos e certeza de que pés encharcados/ úmidos demais são um problemão, não podemos reclamar pois fez a temperatura baixar consideravelmente, dando a trégua necessária do sol. Refrescou, deixou a trilha mais dinâmica e divertida de outro jeito, e deixou gostinho mais bruto de estarmos fazendo aquilo em condições adversas.

A verdade mesmo é que, pra mim, os relatos a seguir são respingos esparsos de memórias de uma cabeça já não funcionando muito bem. « The body tired, the mind tired », um velho especialista em Karatê me falou um dia. Acho que como a nuvem sobre nossas cabeças, minha mente ficou nebulosa e gravou coisas desconexas, mas divertidas. Porém a memória visual de um fotógrafo não falha.

Conforme nos aproximamos da parte noroeste da ilha, a civilização foi se tornando mais presente, e consequentemente surgiram locais para abastecer água e suprimentos rápidos. Decidimos que gastaríamos o mínimo de tempo nas paradas, e depois de uma dia de aprendizados naturalmente entendemos nosso ritmo como grupo, avançando focados na conclusão da missão.

Outra coisa é que tiveram bem menos assuntos esse dia. Os assuntos de problemas pessoais foram expurgados na primeira metade do dia anterior, o de projetos futuros na segunda metade. O resto foi só fortalecer laços com os novos melhores amigos brutos demais. Acho que pra mim, isso contou mais do que qualquer coisa. E estar inserido na floresta com mar, ciente do local do treino super especial, preservado e selvagem, fez pensar nos impactos mínimos que queria causar ali e na vida em geral. A cabeça vai longe em situações assim. Saber que percorri a distância bem rápido, com pouquíssima coisa nas costas, te coloca no seu lugar no mundo, em termos de consumo, de alimentação, de quem se importa com você de verdade e vice-versa, do que você almeja pra vida. É piegas, mas é real. Como Murakami diz, não posso recomendar correr longas distâncias a qualquer um, mas quem faz esse tipo de coisa entende as reflexões que aparecem no percurso.

Checklist de partida:
⁃ 2 mudas de roupa pra correr;
⁃ casaco corta vento;
⁃ mochila de hidratação com 1L de água;
⁃ pastilha hidrossolúvel de sais minerais;
⁃ sanduíches de pão Nórdico da Slowbakery com manteiga de amendoim/ queijo minas do meu sítio e mel;
⁃ barrinhas de chocolate proteico da Mother Nutrients;
⁃ géis de carboidratos para quando o tanque entrar no vermelho;
⁃ paçoquinhas e bananadas naturais;
⁃ 2 sachês de proteína plant-based Mother, Vanilla e Chocolate;
⁃ vaselina sólida;
⁃ faca canivete;
⁃ spray de pimenta;
⁃ manta térmica emergencial;
⁃ zipties;
⁃ escova e pasta de dentes;
⁃ isqueiro;
⁃ baby wipes;
⁃ kinectic tape para meu pé ruim;
⁃ headlamp;
⁃ esparadrapo e gaze;
⁃ advil, tandrilax e polaramine;
⁃ dinheiro vivo, cartão e carteira de dentidade;
⁃ celular. carregador de celular e bateria extra;
⁃ drone;
⁃ câmera Olympus XA analógica, minha fiel;
⁃ 3 filmes Kodak Pro Image coloridos 36 poses;
⁃ sacos ziplock de diversos tamanhos.

UFA. Viajar é bom, e voltar para casa é quase melhor.

 

 

 

 

 

 



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