0

Seu carrinho está vazio

VOLTA DO CAIRUÇU

outubro 27, 2021

É tanto um alívio quanto assustador saber que você passou do ponto que é melhor seguir adiante. Voltar daria muito mais trabalho. Abala a cabeça quando essa constatação chega com trinta quilômetros acumulados nas pernas, percebendo que vai varar a noite por no mínimo mais 5 horas, bateria do GPS no vermelho sem sinal de celular, sem opção de resgate em mar e muito menos em terra (nenhuma estrada acessível). 

Cairuçu, cujo significado é “Aldeia Grande”, reflete a pluralidade dos povos, da natureza e das vivências que se encontram na área. Cairuçu é um território onde é permitido sonhar. 

A área de Proteção Ambiental tem seu território composto por uma área continental e 63 ilhas, totalizando 34.700 hectares. Essa área abriga diferentes povos e comunidades tradicionais, Caiçaras habitantes de ilhas, Trindade, Sono, Ponta Negra, Cairuçu das Pedras, Martins de Sá, Juatinga, Cajaíba, Saco do Mamanguá, Ponta Grossa, entre outras; abriga também os Territórios Quilombolas Campinho da Independência e do Cabral, Terras Indígenas Guarani Araponga e Paraty-Mirim.

Nosso trajeto incluía a Pedra da Jamanta, subindo sem parar 1200m a partir do nível do mar. Era o trecho mais desafiador, a Floresta Primária com mato alto fez ser difícil imprimir um ritmo bom - a cada 5 minutos conferíamos o dispositivo pois a trilha sumia. Marcas de facão em algumas poucas árvores ajudavam a identificar o caminho certo. Início da empreitada: ânimos exaltados e pernas frescas nos levaram até o cume em 3 horas, infelizmente nublado sem a vista que esperávamos do Saco do Mamanguá. Queria ver os igarapés sinuosos cortando a mata tropical, desaguando no braço de mar que entra no continente rasgando as montanhas. Em vez disso, árvores queimadas no nevoeiro Bruxas de Blair e uma mata jovem e baixa nos receberam regadas a formigueiros vermelhos e os primeiros indícios de capim-navalha marcaram nossas pernas. Fabinho sacou o facão e ao procurar a direção, subiu numa pedra alta. Olhou para baixo em direção a um desfiladeiro de mato baixo completamente denso e, incrédulo, falou: "É por ali mesmo. Trilha inexistente." Seguimos descendo varando a vegetação por aproximadamente uma hora até encontrarmos uma mata mais amigável mas mesmo assim vasculhando para achar o caminho que batesse com o tracklog. Em dado momento até achamos uma árvore que alguém no passado talhou o nome de alguns integrantes por coincidência - João e David. Após quedas feias, costelas machucadas, pernas lanhadas, articulações avariadas, passamos por alguns abrigos de caçadores e chegamos na Tribo Guarani. Eram uns 10, as únicas pessoas nos quase 8kms de mangue super preservado, na Reserva Ecológica da Juatinga. A partir daí não tivemos mais dificuldades com navegação (salvo uma indecisão à noite na subida entre Martim de Sá e Ponta Negra). O menino Guarani com camisa do Flamengo acompanhou no trote desde o Rio Grande até a praia. Tudo deserto. Sentamos no primeiro lugar que encontramos para reabastecer e avaliar os danos. Estava completamente exausto e só tinha concluído 1/4 do percurso. Tentei tirar um cochilo de 5 minutos na cadeira de plástico do barzinho, sem sucesso. Comi um sanduíche, mudei algumas coisas de lugar da minha mochila, e dei um gole na cerveja gelada (não tinha Coca-cola). Qualquer coisa para tentar minimizar o deficit calórico. Reabasteci o Babyhydrax e comi um chocolate MOTHER. Nós conversávamos só com olhares sabendo do cansaço do outro, da dor de uma possível costela quebrada, do dedo do pé fraturado na semana anterior. Empatia. Algo que parece pequeno, uma unha encravada por exemplo, pode tornar a missão impraticável e comprometer todos nós. Jamais ficaria um dos 6 para trás, o time estava entrosado. O bonito do nosso time é que temos nossos atritos, mas falamos na cara. Enquanto corro aprendo a falar o que sinto, aprendo a ouvir e vejo as faíscas dos amigos, pondero os lados. Me sinto mundano, humano pequeno no meio de uma floresta ancestral imensa. É curioso que um esporte tão individual ganhe uma proporção muito maior quando acrescenta o fator coletivo.  Somos 6 muito diferentes entre si e isso nos enriquece como grupo. Realizo que estou onde queria estar. E os quilômetros passam-se rápido sob meus pés.

Não é de hoje que imagino e vejo coisas quando corro na floresta:
Quando sou o último da fila, me imagino o guardião do time. Consigo avistar todos, se qualquer monstro-anfíbio-futurístico ameaçar um ataque, eu que chegarei na voadora. Quando estou na frente, me imagino o desbravador dos caminhos, dito o ritmo forte pois acho que meus amigos esperam de mim. Estufo o peito e vasculho com olhar, atento a estímulos sensoriais diferentes do padrão. O lado racional diz que é estado de alerta, visão periférica e mecanismos de defesa do cérebro. O lado emocional diz que são serpentes com asas, tribos canibais sem contato com o ser humano, portais mágicos que podem se abrir pra outras dimensões. Acho que a onda do "Cairuçu é um território onde é permitido sonhar" bateu forte em mim, porque certamente não era delírio de fome. Dentre os itens fotográficos e de segurança na minha mochila, levei sete sanduíches caprichados com ingredientes que vegetariano nenhum colocaria defeito, além de bananadas e castanhas. Não contamos com nenhum abastecimento de comida ao longo, apesar de conseguirmos dois lugares. Água tinha em abundância no percurso. Antes de sair, calculei que seriam 12 horas correndo e no final a conta foi perfeita. Porém não contava que seriam quase 18 horas totais contando as paradas. Pensei que seria melhor levar com margem para um imprevisto dos piores, e eu odeio passar fome. Quem tem 2 tem 1, quem tem 1 tem zero. Na noite anterior chacotas alheias acerca do meu picnic ambulante. Com 10 horas nas pernas, todo mundo dando bocada no Azeitona com manteiga de amendoim com mostarda e uva passa. Nesse eu sei que exagerei. 

Quando caiu a noite, estávamos em Martim de Sá. Fui ao "toalete" na pausa em que colocávamos nossas headlamps e enchíamos as garrafas. Éramos 6 pessoas e 5 headlamps, então nos posicionávamos de modo que o menos favorecido com iluminação ficava em segundo ou terceiro da fila. Mesmo com baterias full charge ficamos em modo racionamento, pois imprevistos acontecem e o olho se acostuma com a penumbra. Eu me sentia extremamente cansado quando chegamos nos 45 quilômetros, era a maior distância que tinha percorrido até então.

Ao mesmo tempo, a felicidade irradiava tanto que nem a chuva nem as pequenas incertezas das bifurcações que erramos podiam tirar minha concentração. Êxtase percorria meu corpo. Já conseguia ver que a empreitada seria uma sucesso, mesmo estando com a carcaça destruída, mesmo sabendo que ainda faltava um montanha grande pela frente. A última subida do dia acresentava mais 500 metros em nossos já 3000 acumulados. Partia da praia de Cairuçu das Pedras, chegando na pequena comunidade de Ponta Negra. Seria ótimo para o psicológico chegar novamente em um povoado. No meio da subida cogitamos ir até o Saco Bravo mas dado o horário apertado, e sem o prazer do visual ou de banho, não nos arriscamos. Queria muito conhecer o icônico lugar mas será na próxima oportunidade. 

As praias com areia vasta que corremos à noite estavam delirantes. Corremos com luzes apagadas sob a imensidão das estrelas, pequenos faróis de barcos no horizonte, barulho e cheiro de mar. Cruzamos diversos rios sob a chuva tropical constante, molhar os pés já não era mais problema. Mais um soco de endorfina e seguimos rumo ao desfecho.

Difícil dizer qual foi a parte mais marcante para mim. Mas saber que percorri uma distância colossal com minhas pernas, em quase 18 horas totais, até hoje é um pouco espantoso. Colocar o corpo nessa situação por livre e espontânea vontade é contra-intuitivo, mas quando me lembro no topo da Jamanta no nevoeiro, quando me lembro das conversas de vida com meus amigos e as conexões fortalecidas por ter compartilhado o perrengue, realizo o motivo. Vivo para momentos assim.

 

Leia também: VOLTA NA ILHA GRANDE 

 

 

 

 



Ver outros artigos

PARA O QUE SERVE E COMO CONSUMIR O GEL DE CARBOIDRATOS?
PARA O QUE SERVE E COMO CONSUMIR O GEL DE CARBOIDRATOS?

novembro 30, 2021

INCENTIVAR PEQUENAS MUDANÇAS NA ALIMENTAÇÃO É UM GRANDE PASSO PARA SALVAR O PLANETA
INCENTIVAR PEQUENAS MUDANÇAS NA ALIMENTAÇÃO É UM GRANDE PASSO PARA SALVAR O PLANETA

novembro 16, 2021

A GREEN FRIDAY E A BUSCA POR UM CONSUMO MAIS CONSCIENTE
A GREEN FRIDAY E A BUSCA POR UM CONSUMO MAIS CONSCIENTE

novembro 05, 2021