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PESCADERO COSTAL ROAD RACE: RELATO DE UMA CORRIDA DE BICICLETA NA COSTA FRIA DA CALIFÓRNIA

junho 16, 2021

Tem uma coisa sobre viajar com a Bike que te faz sentir especial. É igual como quem viaja com prancha de surf, skate, pipa de kite… Parece que os olhares no aeroporto se direcionam facilmente pra você. No trajeto com a mala, as pessoas já sabem o que tem dentro e puxam assunto, querem saber quantos quilômetros você anda, a qual velocidade chega, quanto custa tua máquina.

Mesmo após a bagagem despachada, burocracia e nervosinho de entregar sua magrela nas mãos de um atendente super simpático, fica algo no ar. Pode ser a ansiedade, a mente imaginando o que está por vir. Seus sensores olfativos se adaptando pra receber o cheiro suave das plantas da beira da estrada. Os pelinhos dos braços dentro do casaco, sabendo das futuras aventuras parecem se pentear sozinhos na direção que os ventos secos do interior estão soprando. Corpo e mente conectados, um regendo sobre o outro numa orquestra onde os instrumentos são ora pensamentos, ora sensações físicas, disparando notas silenciosas harmoniosas, que ecoam na vida do sujeito.

Exagerado? Talvez. Ou não. Sei lá, não importa, acho que realmente vejo uma especialidade em viajar para pedalar. Me sinto como se fosse predestinado àquilo.

Acho natural empacotar os pertences em volta do quadro encaixado na mala-bike. Mesmo viajando de ônibus, já tem o esquema certo pra convencer o motorista do Uber na rodoviária às 5am a levar as tralhas. Ou no melhor dos casos, desamarrar a bike do bagageiro do ônibus e possivelmente engatilhar no pedal do dia com os camaradas do destino.

Saindo da Bay Area já sentados no trem sentido Walnut Creek, uma mulher interessadíssima nos dois estrangeiros logo apontou pela janela o Mount Diablo. Avistava uma montanha longe, sem árvores grandes no topo ou pontos de referência em volta. Eu e minha inocência, não achei tão imponente assim. Em cima de duas rodas e travando uma batalha longa e silenciosa contra gravidade, certamente a opinião mudou. Principalmente depois de encarar a subida completa no dia seguinte à Prova, com as pernas ainda sofridas.

O Diablo pode se comparar à subida da Mesa pro Rio, ou o Pico do Jaraguá em SP, no sentido de notoriedade. É o morro que molda as pernas dos meus caros amigos Californianos, as mesmas pernas que vi girar pra longe na corrida em Pescadero.

Não me entenda mal. Nervosismo e ansiedade em prova são coisas que sempre estarão ali, mas você aprende a lidar. Quanto mais vezes você alinha para uma corrida, mais de boa você tá pras próximas e isso é um fato. Eu gosto de competir com gente que eu não conheço. Gosto do inesperado dos esportes, de não poder julgar quem está à sua volta, é como uma escola pra vida. Mas mesmo assim você dá uma julgadinha.

Conversando com meu amigo Alex sobre o potencial dos adversários, realmente não fazíamos ideia do que encontraríamos pela frente. Chegamos no local da corrida e não parecia ter ninguém ali a passeio. Mas com tantas categorias largando em horários diferentes, só me perguntava: “cadê meus coleguinhas da CAT 5?”. Aquele frio na barriga batendo gostosinho.

A tarde anterior não podia ter tido melhor briefing. Aaron Alex e Jow no sofá, dois cafés e não um chá mas O Chá Japonês analisando o percurso da prova: para nossa categoria era largada neutralizada, duas subidas de uns 4 mins, uma sessão longa de plano de estrada, uma subida de tipo 7:30 mins, 7% de inclinação média. Isso tudo duas vezes no total de 75 km.

Então tá. De volta ao frio de Pescadero, na neblina baixa e densa que assoprava sobre dois tupiniquins congelados, evacuada de banheiro químico realizada, numeral de prova alfinetado na jersey, aquele todo pré-race ritual completo e escutamos dois caras aquecendo, falando português. Naquele ambiente hostil qualquer colega de língua vira amigão. O cara também correria no CAT5, mas esqueceu a sapatilha. “Comprei semana passada, daquela marca… giro né”. Sem preconceito, sem julgamento. Mas a gente sabe nos detalhes quando a pessoa tá despreparada. Que droga. Basta um olhar trocado com o Alex e virou piada interna.

“Porra, Jow. Você tá correndo com caras *assim*. Se vc não ganhar essa porra vou falar pro RJ inteiro contra quem você tava alinhando!”

Eu e Alex rimos juntos. Hahaha. Só que não. Mesmo se o novo amigão tivesse levado a sapatilha nova, duvido que conseguiria ver o que sobrou das pernas que sofreram a carnificina antológica sobre rodas.
Na linha de largada, o moto-comissário deu as diretrizes mais precisas que já vi. Parece besteira, mas lembrar os atletas de pequenas regras de boa conduta antes da largada faz toda a diferença.

If you go OVER the yellow line, I will call you to the back of the pack, and we’re gonna TALK. And I’m gonna ask you WHY you went over the yellow line. If you do it again, I will give you a warning! Also, you’re riding ON the yellow line for me you're already OVER the line. You’re responsible for your front wheel! DON’T CROSS IT.

E os camaradas CAT5 respondiam em coro “YES SIR”. E eu de cabeça fria (e passando frio) sentado no toptube cor cinza durepoxi, já de óculos e poker face mode ON só pensava em um portal mágico se abrindo logo a minha frente, onde pra trás tinha toda minha bagagem de treinos, alimentação, estudo de percurso, equipamento em dia, desejo uma boa corrida à alguns ao redor pra fingir simpatia e mentalmente dou um passo à frente, para dentro do portal. Nada mais importa.

Na primeira subida deu pra sentir qual seria o ritmo da prova. Alguns moleques atacaram logo no começo, mas dá pra saber quem é um pombo sem asa. Eu me posicionei entre os 5 primeiros e ali mantive meu espaço. A estrada estreitava e não queria correr um risco de ficar para trás por timidez de posicionamento. Pros numerólogos, pra ficar na ponta foi preciso 315 watts (66 kgs) e 4.7w/kg durante 4 minutos. Já na primeira descida, deu pra ver que técnica não era o forte da galera. Entrando na segunda subida, a ficha caiu. O passo aumentou e o pack de 30 foi reduzido pela metade. Eu contribuí pra carnificina no que pude, ao final botei a cara e sentado no selim e aumentei a cadência pra aquecer as pernas e avaliar quem eram os bons escaladores. Nada além de 4,9 watts/kg por 3:35mins. Vai brincando. Vieram uns 3 malucos junto, descida com uns cotovelos fechados e na parte planície logo o pack alcançou. Sem grandes emoções até o começo do Haskins, a terceira subida, e onde eu deveria avaliar realmente se conseguiria atacar no próximo Lap, ou se seria apenas me defender das espadas dos mini-samurais americanos de 17 anos. Subindo o Haskins, a endorfina bateu. Senti que realmente estava “in the zone”, olhava em volta e pensava, esses garotos (28 anos tô velho) tão sinistros. Pensava na situação toda, ali na costa da Califórnia menos conhecida, fazendo o que mais gosto, botando as pernas pra funcionar. Mas no meio das árvores coníferas gigantes beirando as curvas largas e asfalto perfeito, na sombra e no vento gelado que esfriava os corpos fumegantes e suados, eu sobrei.


Eu e mais uma meia dúzia de três ou quatro. Fiquei em pé e amassei os pedais, sentei e cheguei a bunda pra trás no selim e usei o quadríceps até não dar mais, cheguei a bunda pra frente e usei o glúteo e a panturrilha até arder, desci e subi marchas, oxigenei o máximo do meu pulmãozinho. E só pensava nas palavras do Aaron durante o briefing da noite anterior. “Don’t leave ANYTHING behind on the climbs. I want you to go FULLGAZ”. And so it was, e mesmo assim sobrei tipo um minuto. Cheguei no topo com um camarada que falou esbaforido “30 seconds pulls!”, e na primeira curva que deitei, vi o mano 30 metros atrás. Então era eu e mais só eu descendo de canhão nessa estrada desconhecida, mas bem ampla para ver as curvas pela frente. Acertei todas as tangências, pedalei no super tuck à lá Froome na 8º etapa do Tour de France de 2016, e me levou dez minutos descendo voado sozinho pra tirar o atraso de 1 minuto da subida. Modéstia a parte, foi uma aula de descida, e a sensação de buscar o pelotão principalmente pela técnica foi impagável. Aquele tipo de coisa que dá a motivação necessária pra continuar. Te faz pensar na película mais fina da borracha do pneu que toca o asfalto, deitado em um ângulo matematicamente desafiador, onde tudo que manteve sua sensível carne longe de ser rasgada pelo chão estava sob constante stress, no limite do material. E lá estou eu, maravilhado, exausto, delirando sobre esse tipo de coisa, e percebo que o encanto termina à medida que o gradiente do terreno aumenta novamente na dupla subida matadora, dessa vez na segunda e última volta.

Sentia-me recuperado o suficiente pra manter no grupo, mas não pra arriscar ou gastar os poucos fósforos que restavam. O pelotão parecia visualmente cansado, se arrastando, e sabia que tinham dois atletas escapados a mais de um minuto na frente. A essa altura também não adiantava tentar organizar para buscá-los. Minhas pernas pediram ações racionais, e me posicionaram nas últimas rodas, onde pude ver uma série de acelerações desnecessárias deslanchadas por jovens imaturos competidores. Da minha posição eu os via se afastarem, porém controlava a distância sempre ao alcance dos olhos. E sabendo da descida técnica após o segundo morrote, eu “estava em casa”. Tudo de acordo com os planos e lá estava eu de volta no pack depois de rasgar umas curvas.

Na última subida do dia, novamente um Haskins na minha frente, 15 cabeças em volta. De novo vinham frases na cabeça tipo “não vou deixar Nada pra trás” nessa subida, e essa foi minha meta. Estava chegando junto do pelotão e já entendi isso como uma vitória pessoal. Agora queria realmente sentir que as pernas foram exigidas o máximo, e entregaram tudo que puderam. Despejei força e depois de um tempo passando alguns e sendo passado por outros, depois do coração bater mais rápido que o aceitável, depois de as coxas incharem e sentirem princípios de câimbra, lá estava minha mente inabalável sem desistir, andando na linha tênue de cair duro versus mais alguns segundos girando as pernas. E é nesse sentido que mesmo tendo terminado a prova em 11º colocado, consigo me sentir vitorioso, sabendo que alcancei o que buscava. A sensação de que dei tudo que podia, de que coloquei a cara à tapa e venci a vontade de desistir. Que o trabalho mental estava no ponto certo e ainda assim encorpou a espessura. Que mais uma vez entendo que no meu caso, o que move é o amor pelo processo, e não a urgência do fim. Mais um passo diante do autoconhecimento, e mais uma atualização na amplitude desse termo.

 

 

 

 

 

 

 

 



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