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EU TENHO MEDO DO SILÊNCIO

agosto 04, 2021

Me chamo Felipe e tenho 29 anos. Apesar de sempre ter praticado esportes, posso dizer que sou um “menino da cidade”, apresentado à tecnologias desde muito cedo. Quando tinha 10 anos, meus pais compraram nosso primeiro computador com acesso à internet. Com 12 anos, ganhei meu primeiro celular e, com 13, o meu tão desejado discman. Desde então, a vida foi barulho.

Fui acostumado a temer o escuro e o silêncio. Me sentia sozinho e desprotegido contra os perigos do mundo. Na minha infância, quando não tinha nada pra fazer, eu ia arranjar algum barulho pra me distrair: televisão, música, jogos, brincadeiras, ou meus amigos. A coisa foi se intensificando com o tempo e, às vezes, parecia que um trem passava pela minha cabeça: estudo, trabalho, treino, família, fome, sono, alegria, angústia. O barulho era tanto, que meu medo do silêncio aumentou.

Minha relação com o esporte sempre foi forte. Competitivo por natureza, sempre fiz as coisas para ser o melhor. Na adolescência, adotei a natação como paixão e gosto de pensar que tinha certo talento na piscina. Mas era difícil encarar o silêncio antes de uma largada: eu estava sempre pensando no que meu treinador falou, no que eu fiz, no que meu pai ia dizer, em alguma música, no que meu amigo me contou, em algo que vi na TV… Com o tempo, esse barulho tirou o meu prazer de competir.

Há 6 anos comecei a praticar triathlon e - rapidamente - percebi que ia ter que encarar o silêncio. Ele vinha de longe, mas ficava ensurdecedor quanto mais eu me esforçava. Pra abafar, saía pra correr e colocava uma música nos fones. Quando o treino era forte, a música tinha que ser intensa e alta. Pra pedalar, escutava um podcast. Imerso na piscina, revivia conversas e fazia planos para o trabalho. Percebi também que meu medo de silêncio aparecia nas provas, quando estava longe da torcida, sem ninguém por perto. Cantava músicas na minha imaginação e tentava me distrair com o barulho que eu mesmo criava.

Mas por que esse medo do silêncio? Por que essa necessidade de estar sempre com a cabeça ocupada? Com dificuldade, fui desafiando meu receio para achar a resposta. Quanto mais aceitava o silêncio, mais eu me escutava. Comecei a ouvir as minhas passadas, os carros passando ao meu redor, o barulho das árvores, dos pássaros, da corrente da bicicleta. Esse estado me trouxe paz: cada vez mais, conseguia escutar o silêncio na minha cabeça. Com a prática, a conexão com a minha natureza foi se intensificando. Passei a escutar o batimento do meu coração, a sentir cada músculo do meu corpo trabalhando para ir mais rápido. Acredite: tudo passa mais rápido quando estou atento a mim e à natureza que me cerca.

Nem sempre é fácil e, muitas vezes, sinto medo do silêncio de novo. Nessas horas, tento lembrar que ele é um companheiro necessário. É só em meio à ausência de barulho, que eu passo a escutar de verdade. É só na falta de companhia, que encontro a mim mesmo.

 

Créditos: @anacecilia_photo

 

 



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